quinta-feira, julho 26, 2007

Andy Warhol

Sunday Morning é impossível de escutar por aqui. Parece um alarme falso da tua presença. É só pôr o disco pra tocar que choro e lembro tão doce de ti quanto o início da música que tanto embalava nossas manhãs. Logo depois começa I'm Waiting for My Man, que tem um título cruel, mas fica vazia quando você não levanta pra trocar, porque essa é forte e pode nos acordar mais do que desejaríamos numa manhã de domingo. Femme Fatale. Venus in Furs: antes, I Could Sleep a Thousand Years, agora, Different Colors, Made of Tears.

5/6/2007

domingo, maio 20, 2007

Condição II

Entre as coisas que sobraram
desde que Rodolfo partiu, estão:
a caixa, o laçarote azul e alguns
cacos -- o salto,
ele calculou mal, e o
prato (caríssimo, herdado da avó),
era de porcelana.

quinta-feira, março 29, 2007

Giz

Só te encontro agora pó nas superfícies das coisas, resquício de saudade que eu me forço a não varrer. Fecho os olhos e tento te imaginar pálpebras, sobrancelhas, covinhas nas bochechas -- pareces sereno e sorris como no tempo em que você achava graça no meu cabelo e ria contido para que eu te percebesse sério. Mas agora me apego à detalhes, sou incapaz de diferenciar tua figura do armário, da parede ou da textura dos lençóis. Me atenho a redesenhar as esquinas do teu quarto, a cor das paredes, cada falha na pintura ou mudança na organização das coisas que naquele tempo costumavam me escapar de vista (eu era distraída contando teus sinais e assistindo tuas costas enquanto dormias). Agora calculo obssessivamente a disposição dos objetos do apartamento, sou capaz até de descrever o escuro, mas tua ausência virou tão vazio que é como quando eu acordava à noite e não sabia te dizer se tinha tido um sonho bom ou ruim.

segunda-feira, março 12, 2007

Graus

Primeiro vêm os pensamentos, cada vez mais centrados/dispersos, então a angústia cresce, caminha pelos braços e chega até as unhas, agora roídas até o sabugo. Arrancar a pele dos cantos do dedo seria movimento de extrema meticulosidade, não fosse tamanha a dispersão na qual ele se realiza. Neste meio tempo, manter sempre quando possível os olhos fechados, para que a mente não perca nada, pois é preciso, a qualquer custo, continuar enxergando.

E caminhar de óculos só faz piorar, plastifica a paisagem, despersonifica a cidade tão bem conhecida embaçada, despida da intimidade opaca entre a textura do asfalto e as sombras das marquises. Saber identificar detalhes nos rostos, avistar paredes e ventiladores para além das janelas mais altas, recortar minha própria figura turva que reconhece, resignada, a estranha clareza estrangeira das coisas.

É domingo à tarde na rua São Clemente, e este chão é só poça que me molha os sapatos. Esqueço-me em vitrines e listras, reparo brincos, cartazes, calçadas; sou só paisagem, olhar disperso e obviedade angustiada. Nitidez absoluta.

09/09/2006

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Lucky me

(ou Calhordinha I)

desde que comecei
fumante inveterada, obsessão, marca
registrada, gostava
-- gostávamos --
de luckies.

agora não, foi mais como des-
- ilusão - apontamento - intoxicação? what-
ever: just me, sou mais
free.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Copacabana

Segunda quase terça
fito meus pés de calçadas inóspitas:
latejam buzinas ponteiros, entranhas
que choram pois trocam verões
por noites céus encobertos
de cinzas - etérea eterna angústia, palidez
dos vazios olhares, olheiras
de medo aziadas retinas me
encaram: as minhas doentes
insones febris, refletidas nas
tuas -- doentes, insones
febris.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Dois

Arrisco todo o tempo do mundo, não tenhamos pressa. Ele diz que sente - ele jura - que só dura vinte e cinco, eu otimista, suponho quarenta e dois. Temos, portanto, calculo com as mãos: um dois três anos restantes. É tempo muito para colecionar outonos, admitir ilusões, tatear as terminações de cada nervo, cabelos, omoplatas, sinais nas costas. Combinaríamos escalas de cores, minutos, espelhos foscos e feixes de luz. Ou então, há ainda tempo que obrigue nossas unhas a arranhar paredes, muros de casa, até que arranquem em brasa as dobradiças das janelas, asfixiadas: obscuro carnaval por dentro, carnaval de luz lá fora, máscaras, segredos mil. É cedo. Quem dirá se já, agora, caberia a nós dois pensar em números? Quanto mais nestes poucos, aqueles, que não se contam nos dedos.

sábado, janeiro 13, 2007

Ciranda entre tangos

Me desculpe o entusiasmo, mas não é todo dia que encontro alguém assim tão medido cabido perfeito, e agora já bem sei que não adianta fingir, fugir desse verão tão repleto de terças-feiras, fumaça, e meninos de rua que você não existe nem olha pra mim.

À flor da pele o tal fulano flautista ilustre, experimenta cirandas e agudos para as tantas outras pernas que floreiam em roda, imundo o piso que gruda nos pés. Mesmo no salão cheio estou um pouco sozinha, ensaio a cara de indiferença e já de prontidão aviso que não sei dançar: dois-pra-lá dois-pra-cá, tem que soltar mais os ombros, segue meus passos, deixa que eu te levo. Prefiro sambar assim de longe, finge que não me toca, desvio o olhar, pode provocar que eu sou forte e madura e segura de si. Temos muito em comum, ele diz, parece estranho mas, com licença, posso te beijar?

É claro que prudente seria pedir logo um táxi, sacar a chave de casa, bater a porta do quarto de persianas, lençóis, abajur. Ligar o ar-condicionado, dormir de maquiagem, exausta vazia e um pouco bêbada, como se nada nem ninguém pudesse ter tido a mínima ínfima chance de se aproximar um dia da minha heróica distância particular.

Ao invés disso, pega meu telefone, recito afobada os oito números, repito para ter certeza, pode ser que ele ligue, quem sabe marcamos uma praia, vamos ao teatro ao cinema à ópera ao raio que o parta; ou então não liga nunca mais, pediu por capricho, apenas solícito, estava sendo bem-educado.

Esquece, eu sou só uma trepada em potencial, sou qualquer uma, sou fácil demais. Quando precisar, me dá um toque que eu caio direitinho. Pensa que me engana? Cantarola um tango antigo, tem tristezas, nostalgias da Argentina, ele parece tão sensível... Olha pra mim, eu pareço entusiasmada? Não, não fala. Me abraça outra vez daquele jeito. Espera, eu mal te conheço. Pensando bem, tenho sono, já são cinco da manhã: você pode me deixar na Gávea?

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Das cinco

a lâmpada oscila esperando a
deixa -- exato iminente momento em fusão
de acender.

me alertaram quanto à hora
de verão - contudo
essa sombra contida, (e as cigarras
já mudas) não combinam mais
com tanta opacidade - luz fria
das seis.

domingo, dezembro 03, 2006

In-fotografável

cabeça baixa em banheiro público
sentir arder a quarta
quinta dose - ou mais -
não adianta forçar:
a garganta só atiça escava
até o fundo


de cada copo - ver queimar
todos os filtros de todos
os cigarros de todas
as noites de todas as lentes
quentes calçadas cores que não são
fotografáveis.

Perna acima

No vestiário, arrastava com os dedos a meia calça rosa: primeiro pelos calcanhares, depois pelos joelhos até as coxas, que resistiam à elasticidade apertada do tecido. Nessa hora, amaldiçoava o excesso de carne daquela região, beliscava a pele e observava cada relevo da superfície da perna. Depois, as sapatilhas: desenrolava as fitas, protegia a ponta dos dedos com um pedaço de espuma macia e aplicava-as com cuidado no pé, finalizando com um nó no cetim do tornozelo. Ensaiava uma subida nas pontas, e com alguma pressa e muitos grampos, esticava o cabelo em um coque. Em frente ao espelho da sala, escorregava os pés para cada vez mais longe um do outro, até alcançar uma posição totalmente confortável na abertura do espacato. De pé, era só ouvir o barulho abafado do gesso da sapatilha no chão de madeira e breu, batendo cadente com a valsa martelada suave ao piano. Era dia de treinar grand jetés.

terça-feira, novembro 28, 2006

Condição

o nome era Rodolfo:
chegou numa caixa
pequenos furos, laçarote azul
rotina de sol, pernas, alguma
caça. tudo era chato e fácil, quase
óbvio: se espreguiçar de manhã sob o
sol amarelo, fixar o olhar num ponto
ao pé da escada, dormir
quatorze horas por dia.
o difícil mesmo
era se acostumar com a condição de
gato.

terça-feira, novembro 21, 2006

Carta inventada II

Ontem não me contive e pus Chet pra tocar. Fiquei realmente nostalgico e acho que ela percebeu, pois veio sentar comigo na sala de estar com um sorriso meio amarelado no rosto. Não sei, esses domingos têm mania de me confundir. Ficar sentado nesse apartamento enorme, observando Copacabana, contando janelas. Não sei mais. Outro dia, ao revirar a estante encontrei aquele teu volume do Quintana. Lembrei dos meus discos do Chico, se não foram perdidos na mudança, devem estar com você. Um Quintana por uns Chicos: me parece uma troca justa. A vida continua igual: é pior quando Ulisses não está. Fico o dia inteiro ouvindo sobre pessoas que gostaria de conhecer só de nome e tomo prosecco com ela pensando sempre que é cedo demais para beber (ela tem mania de comemorações). Larguei a academia e voltei a fumar. Tenho tido umas tosses, dores no joelho, devo estar envelhecendo. Mas estou muito bem, obrigado, muito melhor do que estava no meio daquelas malhas e corpos e músculos e ferros. A Maitê planeja uma viagem à Europa no final do ano, não quero ir: passear por Paris e me sentir obrigado a visitar a Elise e o Jano em clima de natal não me anima nem um pouco. Tem sido assustador pensar nisso em meio aos porres de champagne. Me desculpa se só falo nela, ando meio obsecado. Obsecado ao contrário. Se quiser te mando teu Quintana.

uns beijos

terça-feira, novembro 14, 2006

Metonímia

Para escrever bonito, me ensinaram expressões grandiosas e doces. Comentaram a extrema importância de um vasto léxico e do conhecimento (profundo!) de todas as palavras. Então passei a definir com cuidado compota, cheiro, despretenciosamente, saudade e morango. Tirei tudo isso de letra, fiz direitinho a lição de casa e, em pouco tempo, eu engolia dicionários com a avidez de quem aprende a falar.
Mas logo depois descobri que me ocultaram um detalhe imenso, como só a palavra minuciosamente escolhida poderia descrever: pri-mor-di-al. O bom escritor deve saber muito mais que palavras: é preciso, antes de tudo, esquecer-se delas. E reinventá-las, ao ponto em que o sentido de saudade se mescle com o de cheiro, e assim, sem pretensão, morango e compota sejam uma coisa só. E vice-versa.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Anteontem sempre quinta-feira

Você me pára naquela esquina imunda e eu já mais que tonta, vendo dois de ti, eu metade você. Ali só chovia chovia chovia e eu com cigarro encharcado na mão, nó na garganta e o estômago revirando aquela noite que nunca podia ter mesmo dado em nada. Te perco em meia hora, te acho e esnobo, fujo, fico, não penso em nada porque já era para termos ido embora depois do terceiro chope, misturado com o que mesmo? Ah, sim, alguma coisa com cheiro de passado: você diz que tive a infância conturbada, meu bem, era melhor que agora, sem essas ruas imundas cheias de ambulantes e latas e garrafas pelo chão de pedra portuguesa, isso não. Nem tinha esse gosto amargo de pinheiro de natal, que sempre foi tão doce na época dos meus nove.
Chega, que esse jeans me aperta demais, meus olhos coçam, tanto rímel, tudo é turvo e já quase amanheceu. Canso dessa realidade estragada: me ajoelho em qualquer banheiro de bar, prendo os cabelos, e com concentração cirúrgica enfio o dedo na garganta: vomito de vez toda a podridão dessas madrugadas de quinta. Recomponho-me, ajeito o laço da blusa, puxo o sutiã, lavo a boca e penteio a franja: estou de pé. Retoco o blush, rímel, sombra escura nas pálpebras, olhar de boneca. Corro para você o mais rápido que permitem os saltos, e agora estamos sós, nós dois muito pálidos suando frio nesse quarto escuro, censurando vícios, dividindo medos. Unhas roídas, alguns fantasmas, membros que tremem. Mais que tonta, enxergo dois de ti, eu turva, metade você metade chuva rímel pinheiro de natal salto alto e pedra portuguesa, eu estrago, eu estômago. Depois de amanhã tem mais.

segunda-feira, outubro 09, 2006

I

não me lembro bem mas
acho que devias ser moreno, olheiras fundas e covinhas
alguma barba mal-feita e de passo ligeiro me veio
com muitos rodeios falar sobre o tempo
eu distraída não vi nem rabisco
retrato telefone assinatura
letra ou rosto, mal deixou
não lembrei de te esquecer mas
uma pena

te esqueci.

terça-feira, setembro 05, 2006

Intenções

Naqueles dias gelados, só restava respirar daquele único jeito pesado que a rinite lhe permitia e cruzar os dedos para que fosse capaz de jogar tudo para o alto, inclusive algumas máscaras que deixaram de servir. Não pensar. Mas isto, claro, seria impossível, vivia num mundo de gente grande agora, nada de impulsos sem primeiro esclarecerem-se intenções. Sentada em frente ao fogo com livro e cigarro na mão pensando pensando pensando, que burra, naquela casa cheia de janelas e corredores, ninguém nem ela mesma ali, mesmo ali na luz não era ela nem ninguém. Assim somando-se a paisagem alaranjada uma tosse espessa e uma farpa que penetra vigorosa na sola do pé, tem-se uma perfeitamente despretensiosa meia-noite de segunda, logo antes de ele vir falar de.

terça-feira, agosto 29, 2006

Pequena nota urbana

Coca-cola, uns ventos e uma
da madrugada de terça
num Rio sem cristo nem bossa
da varanda aqui é só asfalto,
umas plantas
murchas
e orquídeas de plástico.

sábado, agosto 19, 2006

Unbreakable

Prova diferentes sensações, espreme cada prazer até o bagaço e mastiga um pouco da casca. Costuma pensar que ce n'est pas grand chose. É só mais um, é só uma noite, é só uma música. Não é não, minha cara, é tempo, e tempo é tempo e só, mas passa. Depois não existe mais nada atrás além de tempo passado, e de frente só tempo futuro que não passou ainda. Camiseta de alguém sem rosto, Unbreakable, ela pensa que é. Não é não, é até muito frágil, fachada de vidro. Lucky stroke. Escorregou mas ergueu-se escondida, como fumaça de cigarro americano. E sente uma quentura que vem nãoseideonde, e faz nãoseioquê, mas é forte e insiste em existir ao menos morna. Tropeça em mil cotovelos azuisvermelhosverdes dançando todos música de filme, compassada, que chega quase explodindo no meio do peito. Mas nunca chega lá, no centro. Bem aonde já não sabe mais chegar depois de tanto tempo sem quedas. Depois de queda é diferente. Mas não tem explosão, não. Tem tentativa dê. O som contorna o peito, comprime as beiradas, e a cada som-gosto-toque, a cada quadro (tombo e chão) levanta-se a espera de tempo presente, até cair. E quebra.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Concentração

antes eu era
pé-ante-pé
ensaio de passo e olhar
no chão

agora não
cansei de
concentração
deixei de ser perrapado e virei
pé-de-valsa.

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