terça-feira, setembro 05, 2006

Intenções

Naqueles dias gelados, só restava respirar daquele único jeito pesado que a rinite lhe permitia e cruzar os dedos para que fosse capaz de jogar tudo para o alto, inclusive algumas máscaras que deixaram de servir. Não pensar. Mas isto, claro, seria impossível, vivia num mundo de gente grande agora, nada de impulsos sem primeiro esclarecerem-se intenções. Sentada em frente ao fogo com livro e cigarro na mão pensando pensando pensando, que burra, naquela casa cheia de janelas e corredores, ninguém nem ela mesma ali, mesmo ali na luz não era ela nem ninguém. Assim somando-se a paisagem alaranjada uma tosse espessa e uma farpa que penetra vigorosa na sola do pé, tem-se uma perfeitamente despretensiosa meia-noite de segunda, logo antes de ele vir falar de.

terça-feira, agosto 29, 2006

Pequena nota urbana

Coca-cola, uns ventos e uma
da madrugada de terça
num Rio sem cristo nem bossa
da varanda aqui é só asfalto,
umas plantas
murchas
e orquídeas de plástico.

sábado, agosto 19, 2006

Unbreakable

Prova diferentes sensações, espreme cada prazer até o bagaço e mastiga um pouco da casca. Costuma pensar que ce n'est pas grand chose. É só mais um, é só uma noite, é só uma música. Não é não, minha cara, é tempo, e tempo é tempo e só, mas passa. Depois não existe mais nada atrás além de tempo passado, e de frente só tempo futuro que não passou ainda. Camiseta de alguém sem rosto, Unbreakable, ela pensa que é. Não é não, é até muito frágil, fachada de vidro. Lucky stroke. Escorregou mas ergueu-se escondida, como fumaça de cigarro americano. E sente uma quentura que vem nãoseideonde, e faz nãoseioquê, mas é forte e insiste em existir ao menos morna. Tropeça em mil cotovelos azuisvermelhosverdes dançando todos música de filme, compassada, que chega quase explodindo no meio do peito. Mas nunca chega lá, no centro. Bem aonde já não sabe mais chegar depois de tanto tempo sem quedas. Depois de queda é diferente. Mas não tem explosão, não. Tem tentativa dê. O som contorna o peito, comprime as beiradas, e a cada som-gosto-toque, a cada quadro (tombo e chão) levanta-se a espera de tempo presente, até cair. E quebra.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Concentração

antes eu era
pé-ante-pé
ensaio de passo e olhar
no chão

agora não
cansei de
concentração
deixei de ser perrapado e virei
pé-de-valsa.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Carta inventada a um meio amor

Com a ponta dos dedos, tateio de um extremo liso da superfície da chave ao outro, grosseiramente sinuoso. Engraçada essa tua mania de extremos, oito ou oitenta, me faz fazer juras de amor, me fala de posse. Meu bem, talvez você não me entenda, mas quero que você se vá, eu me vou por enquanto levando até ser digno de ti. Preciso de mim, entende? Me perdi, não consigo saber de nós dois quem é quem depois de tanto tempo, e te conheço bem a ponto de saber que agora me lês com olhar de pura descrença, até com um certo nojo. Sempre me assustei com o teu jeito tão forte, tão sensível a tudo, nada à tua volta não tem teu pleno conhecimento, sentidos múltiplos, só atenção. Eu sou só e quase reação, sempre preferi digerir aos poucos, primeiro o passo, depois a queda, em seguida o tombo, então finalmente a dor, tudo minuciosamente ruminado, quadro a quadro. Me desconcerto a cada impasse e, desastrado, analiso, desgasto, espremo cada impulso, entendo tua repulsa. Também não quero me esparramar em desculpas pra você, dizer que o problema é comigo e fugir safo como um preso solto por bom comportamento. Mas só de olhar já assusto, tantos cabelos, perfumes, bocas, é difícil te dizer isso, por isso escrevo. Não sei se falo demais e sinto de menos ou se é justamente o contrário, esse tempo frio tem a mania de me deixar confuso, mas te peço, por favor: não me faz escolher uma das pontas, não me venha com os teus extremos. Quero antes o meio termo, o morno, a parte maior das chaves, lisa e sinuosa, acidentada e precisa, pequenina e vasta.

terça-feira, agosto 01, 2006

Joaninha

que quer dizer 'carochinha'?
de que cor é a linha
do fio
da meada?
não se incomode, doutor
tô dando um'olhadinha
mas tô sem regador
onde é que apaga o sol?
cadê o homem do saco
e o pai do carrapato?
brincar com fogo não
faz fazer xixi na cama
quanto custa uma banana?
onde mora a mãe joana?

domingo, julho 02, 2006

Sobre begônias e gânglios

Vive, de fato, errônea em um mundo à parte, mas na maioria das vezes, consegue disfarçar bem. Não sente apreço por manhãs, salvo aquelas em que existe alguma pressa, alguma urgência. Manhã vazia por manhã, preferia a noite. De madrugada tudo era mais nítido, a cúpula achatada do abajour, o barulho de um carro lá fora, o som dos dedos percorrendo o teclado. Também nítida era a solidão, embaçada apenas por uns muitos devaneios, sem rosto uma boca respirando na base do pescoço, uns braços. Lia. Adentrava a noite e lia, era e sentia cada um dos personagens, cada conto existia, real e absurdo, formando vida e mundo ao redor da cama. E depois, exausta, a cabeça pulsando, mil bocejos, espirros. A mente traindo todo o resto do corpo cansado, resitente ao sono e ao escuro. As pálpebras rijas, olhar irrequieto, pensa, pensa, pensa, observa e pouco vê. Espera lembrar no dia seguinte de palavras recém-lidas, como 'begônias' ou 'gânglios'. Esquece. E dorme pensando baixinho, os olhos abertos contra o travesseiro, sentindo melancólico o pesar contra o colchão e contra o dia, que nasce atrasado, custa a ser visto e demora a ser vivido, entardece, anoitece, madrugada, sonho e mágoa.

segunda-feira, junho 26, 2006

Entreato

Esbranquiçada invadindo a persiana, arrastava-se a luz pelos corredores e tudo era só bagunça. Cama, gavetas, armários, pensamentos. Cinzeiros cheios, copos vazios, sapatos e papéis, espalhados todos pelo apartamento, disputando o parco espaço com o corpo recém-consciente na cama, pois era, também, de alguma forma, manhã. Assim como todo o resto, bagunçava-se o tempo: duas e vinte e cinco com cara de nove e meia. Precisava comprar cigarros, quem sabe tomar um café. Abre o armário, escava um jeans, agarra uma camiseta, procura os chinelos, chave, sai. A rua por demais clara, também muito movimentada para um domingo, que diabos, com licença, minha senhora. Sair incomodava, era melhor não gastar exposição. A padaria barulhenta e quente, um expresso e um Marlboro, por favor, e decide também comprar um jornal, três reais, que absurdo, bom dia, digo, boa tarde. A cafeína ajudava a despertar, a rua pelo menos parecia mais opaca, e a mente já arriscando estabelecer uma tosca organização. Uma vez desperto, inicia-se a caminhada de volta, duzentos metros da padaria ao prédio, pouco, não fosse o maldito sinal que não abre nunca, o carrinho de bebê atravancando a passagem, e a preguiça agora pressa. Em casa, de volta, maldita chave que não abre, correspondência, conta, carta não, não estou interessado em descontos para chamadas internacionais. Escorrega pelo braço da poltrona e fuma, olha em volta. Põe um samba triste pra tocar, junta a bagunça num montinho e arrasta-a prum canto, até poder circular e alcançar o telefone. A combinação numérica tão bem conhecida flui rápida entre os dedos e os botões, está chamando. A voz atende muda, respira um alô. Ele poderia conversar por horas, passaria dias falando de si, risada casual, voz segura, masculina. Mas só responde um 'sou eu', seguido de um suspiro dela, como vai, bem, e você, vou bem também. Mais silêncio, mais suspiro, olha, não é uma boa hora, te ligo depois, ok? Desliga. O depois viria doze horas depois, quando, chorando, ela ligaria e diria que aceitava, que queria voltar e ficar só com ele mesmo trancada e solta naquele apartamento e naquele cheiro dele de pele, fumaça e perfume, até que a organização das paredes e portas e coisas reais crescessem ganhassem vida e os cuspissem para a rua, onde o mundo era muito mais claro e cheio e barulhento e dolorido e frio. Até lá, apenas os cigarros acesos um no outro, e os dentes contra os lábios sem dó, e as muitas doses de café ao som de Elis. Até lá ele não limparia os cinzeiros, tampouco fecharia as gavetas ou faria a cama. Até lá, antes dela, armários, livros, copos, pensamentos, vida: era tudo uma bagunça.

segunda-feira, maio 29, 2006

Sereno

Eu queria que a vida não fosse tão crua pela manhã. Vestígios de uma noite mal-dormida: a xícara de chá e o livro na cabeceira, os retalhos de sonho, as olheiras, a neblina usual, o corpo na cama. A solidão matinal de sábado, a casa em silêncio, o frio, a vontade de escrever.
Expectativas que aguardam o dia amanhecer, quase calmas, o banho morno por tomar, a roupa por ser, com cuidado, escolhida, a ligação recebida durante a noite, esquecida. Os compromissos urgentes num dia menor da agenda, a maneira contida de se espreguiçar, o barulho seco do relógio, sete-e-meia, o sol no vidro embaçado, o bocejo. Coisas dessas manhãs frias de quase junho, quando, não sei se pelo frio ou pelo sábado, o dia custa a amanhecer. Dói. A manhã rompe a noite com aquela cor de vidro molhado, aquele cheiro de frio.
E essa vontade louca de sentar e fazer cartas imaginárias, declarações de amor para alguém que, que bom!, não existe, essa fome de pontos e vírgulas e parágrafos antes mesmo da vontade do café, mais urgente que o frio, e tão urgente quanto sem importância. Primeiros desejos. Desvencilhar-se de mágoas, aquecer o peito vazio, obrigar-se a estudar filosofia e física. Queria enfim, não ter que ficar me escondendo pelas frestas escuras das manhãs de sábado, atrás de frases que não escrevo para mim, embaixo de vontades que não são bem minhas. Mas, ainda assim, o dia dói, e ainda dói quando se faz tarde e escurece, e ainda dói quando não é dia.
De manhã, mesmo frias e ainda abertas, estão expostas as feridas de ontem, mais fracas, porém mais claras. E não se vê nenhuma esperança com o sol nascendo depois do vidro, só um frio de não ter onde querer chegar, um vazio de ser verdade, umas letras sem propósito e sem remédio, um lamento desimportante. Ao longe, as aventuras da tarde, os deslizes da noite, as madrugadas torpes. Mais tarde a cachaça, a risada alta e plástica, os olhares ocos através da fumaça. É a vida por trás do vidro, cheia de barulhos e gente, cheia de odores, quente, urgente, exterior. Não uma casa cheia de corredores e portas, mas uma vila, cheia de casas abertas, de velhinhas na janela, com barulhos de cigarra e cheiro de bolo. Mas, ainda assim, de manhã tudo é cru, tudo é só casa, só inseto, só sereno, só sono. A vida, crua, não fede nem cheira. Mas custa a entardecer, e é fria, e dói.

domingo, maio 28, 2006

Desamor

Ele me deixou na chuva, com um cigarro apagado entre os dedos e um nó na garganta. Dei-lhe um abraço, tchau, fui embora sem olhar para trás. Ele acha tudo normal, acha mil amores, ama de uma vez, não a mim. Não perdôo. Já perdi, mas nutro ainda esperanças. Isso me vem corroendo a cada dia agora. Um ano, mais quanto tempo? Quatro meses, cinco, talvez menos. Um ano, e mais o que? Ódio, vergonha, ciúme. Inexperiência minha, descaso seu, meu. Desleixo, deslealdade, azar. Destino? Tempo? Sobriedade, qual? Nunca sóbrios, nunca sérios. Distantes sempre, alheios, mas tão próximos... Se me libertar, até perdôo, mesmo assim, mal perdoado, com rancor e com carinho. De preferência, sem amor.

sexta-feira, maio 12, 2006

Outono

A casa ainda era igual, ainda que não fosse a mesma. Os mesmos móveis, imóveis, conhecidos, em silêncio. A mesma mesa velha e gasta. Seis cadeiras, vazias. Pelas frestas das janelas, o vento frio de quase inverno. O gato na subida da escada, estático, olhar fixo. Antes era o sol pelas frestas das janelas. Outrora era o gato, lânguido, deitado na escada; e as cadeiras todas tomadas, em volta da mesa posta. Os móveis não precisavam ser móveis, rangiam, cantavam, viviam. E a casa não era bem casa, e lá, quase sempre era verão.

sexta-feira, abril 07, 2006

Dominical

O som abafado do ensaio de metais abria espaço, tímido, entre as vozes surdas das pessoas no interior do bar. Enquanto, num canto, a banda se concentrava, ela ia, lentamente, caminhando por aquele recinto comum, não fossem as máscaras e cores e confetes que compunham o quadro, colorindo e mascarando a tênue realidade dominical. Alguém lhe sorriu, ou foi de uma máscara? Seu ar deslocado, seu rosto limpo à mostra e suas roupas de gente quase zombavam da festa, como quem avisa, tímida e secretamente: "vai passar, vai passar...". Fora do bar, os apitos, as espumas, mais máscaras, mais gente, a banda saindo na rua, as velhinhas à janela, as crianças de saias de tule, os narizes vermelhos, serpentinas, buzinas, risadas... Ela iria escrever ou cantar ou pintar o que via, assim que chegasse em casa. Tinha vindo, para quê mesmo? Ah sim, para assistir. Conformara-se, há tempos, em ser ouvinte, espectadora da vida. Para ver e contar o que viu. Multidão. Confetes. Barulho. Era carnaval, sim, e isso já se via na lotação da rua. Era carnaval, e era preciso contar. Cantar. Tambor, tamborim, trompetes, trombones. Barulho. Mú-si-ca. E o bloco saiu. No dia seguinte, ela nada escreveu. Tinha se perdido, igual e diferente, no meio do bloco.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Fotografia

Tentei tirar fotografia
pelos olhos já frios
e entre a mente já gasta.

Os olhos
secos, calejados
tudo marcaram
A mente, porém,
embriagada de tão lúcida
quase nada registrava.

Os dedos roídos de angústia
batiam nervosos num balcão
e sem ritmo ou lógica
esbarravam-se em frênesi
diante de uma rala multidão
indiferente a si
e indiferente à multidão.

Os pés não cansados
já não andavam,
pairavam tortos por asfaltos,
afundavam sérios dentre poças.

Os ombros quietos sussurraram
gritando em uníssono 'tanto faz,
tanto faz...'

Como em fotografia
caía fina a fria chuva
vazia de efeito e vazia de frio
real e fosca, como cor
sorrateira, insensata,
que não se sente,
como sombra.

Peço aos olhos quadro.
Peço à mente impressão.
Peço fotografia, bem como é fotografia, bem como em fotografia:
real, muda e imparcial
alheia, turva e em preto-e-branco
bem como em fotografia.

sábado, dezembro 03, 2005

A ti, a tudo, a nada

Eu também sou de me perder
Quando invoco a mim e não me encontro
Quando confesso, entorpecida, o que sinto e o que não sinto
Quando me faço não compreender, pois sei, e sei que bem se sabe
Que não meço o que digo, peço, faço, confesso
Só sei de relances em mim, sentimentos vagos que eu queria tornar constantes,
mas que me fogem rápido,e por vezes voltam, ou não.

Para mim já não basta a busca, fresca, fluida, espontânea por ti
Precisei e preciso de chão, não de piso,
mas onde eu vá deitar, pequena,
num peito onde eu possa ser fraca.

Me tenho censurado a cada dia agora,
tentando não mais te buscar, me tornar lembrança tua
saudade tua, inadvertidamente, tua,
e, quem sabe, de mais ninguém.

Mas quando a mente ganhou asas,
voou também o coração, e hoje, por mais que eu tente,
por mais que eu queira, mais que tudo,
me entregar, e com palavras, te prender aos meus caprichos,
algo me prende a não me prender.
Isso faz sentido?

Eu tusso os resíduos de verbo da garganta
eu cuspo o que não vem de mim,
não adianta, eu minto,
eu minto pra mim, eu minto pra ti,
na vil tentativa de encontrar a verdade.

Eu faço esses versos por pura vaidade,
lamento chato, futilidade, fingimento poético, hipócrita.

Me façam carta, me endereçem a quem for,
me tornem posse, latifúndio,
me marquem, selem, tatuem em mim as iniciais do proprietário,
me prendam!

Nunca me ensinaram pronomes possessivos,
nem adjetivos, advérbios, onde caibam sentimentos.
Mas bem aprendi dois pronomes,
mesmo assim, indefinidos:
nada e tudo.

E o final eu já conheço, sempre.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Fórmula

Eu sou de sono, de letra, de sal e de palha
Eu sou de escárnio e pranto, eu sou de espanto
Eu sou de inércia, de fome, de ódio e de açúcar
Eu sou de aquário

Eu sou disposta, inquieta, tenaz e de ar
Marionete estranha, de pano sujo e remendada
Feita de letras e sangue, de plástico, elástica
Feita de chuva e de sátira
Feita de chá de hortelã

Eu sou de imagem, de cheiro, de colher e de espada
De peito dos outros, de barriga de mãe
De cama, de estômago, de arame e barbante
Feita de giz e cola, rabisco, colagem
Desenho pintado de tinta com tinta no muro da esquina

De súbito, de birra, fui feita de moça
De azar, de aspereza, fui dada a ninguém

E de veia pulsante e de música
De andar por calçadas de asfalto
Debaixo da sombra, de olhos fechados
Sou de me ver como um naco sólido e frágil de carne

De carne e de osso
De sangue e de sonho

sexta-feira, outubro 28, 2005

Sobre a terra

Fui engolindo o mundo de uma vez
até que ele me pareceu uma pedra seca e áspera.
Foi então que eu senti sede
e bebi de um amor que não era meu.
De porre, andei pelo mundo,
que eu já tinha cuspido,
e voltei pra casa insatisfeita.
Sentei na escada pensando se é isso mesmo,
se a vida é uma refeição indigesta que se come com a mão,
para depois cuspir.
Vomitei toda a metafísica e larguei o amor que eu não tinha.
Enjoada de fome, olhei para a rua e vi aquela imensa quantidade de mundo.
Mundo demais para um dia só.
Foi aí que eu perdi a fome
e saí pra jantar fora.


Fora de mim, é claro.

sexta-feira, setembro 02, 2005

O grito

Eu não quero mais lembrar daquilo que eu não vivi, nem sonhar com tudo o que não posso ser.
Tenho visto além do que se vê, e não devo registrar nada.
Eu não quero mais criar manifestos, nem histórias nem contos que nunca saíram da minha cabeça, que nunca saíram por inércia ou porque os julguei ruins.
Quem me dera se eu conseguisse expressar tudo o que eu sinto sem soar clichê.
Escrever por escrever, 'ser gauche na vida'.
Sei que isso é tudo o que me cabe, vim para ver e para contar o que vi.
Queria ter forças pra carregar um fardo desses, mas mal me arrasto, e reclamo.
Queria me dobrar em mil, fazer cartas de mim para mim, oitenta e nove personalidades, uma diferente da outra, engrenagem desmontável, futurista, apressada, industrial.
Mas sou de ferro duro, infelizmente. Sou de ferro duro e frio.
A ferida arde, mas não sangra mais.
Deixaram de acreditar no que antes era urgente.
Bomba nenhuma explodiu.
Nenhum prédio caiu.
Nenhum de nós morreu ainda.
Não, só eu sei; o resto não quer ver, e vive.
Eu não vivo, assisto, apenas.
E não tenho contado a ninguém.

Que diabos aconteceu com o mundo, que de tão cheio, ficou vazio?
E que diabos aconteceu comigo, que não o sinto mais nas costas?
Me calei para tentar viver, mas não adianta:
A garganta queima.

sábado, agosto 13, 2005

Os barcos na baía balançavam, pequenos, longe sob o céu alaranjado. Sentado no píer, ele olhava, bobo, o triste entardecer. Que era aquilo que o corroía o estômago, o queimava por dentro? Até tão pouco tempo era certo de que não sabia amar. E agora, aquilo, era dor de amor? Podia ainda ouvir as palavras dela, cruas, na mente: "Não te amo mais. Vou com o outro. A gente se fala." A despedida com um beijo no rosto. A gente se fala... Falar o que? Acho que já disse tudo, amor da minha vida, a gente se fala, até mais. Já quase noite, ventou. E agora? Que era sem ela? Ah, Maria, porque me deixaste se sabias que eu era fraco? Quis levantar. Desistiu. Vai passar, que importa? Não era então a vida feita disso? Acontece. Depois vem outra, e vai outra, ou ele vai. Uma sucessão incerta de "a gente se fala" consecutivos, um tão triste quanto o outro, ou não. Mas aquela paisagem, a água, os barcos. A água, o vento. A água. Os pés acima da água. Sentiu vontade de afundar, deixar-se cair, deixar-se sumir na baía. Mais perto, mais fundo, mais fácil. Por um momento, quis, mais que tudo, cair. Mas levantou, e saiu andando à procura de um bar. A boca amarga, o passo torto, o triste andar de pierrot, cadente, ilógico. O ar cabisbaixo de um palhaço triste. E a água, o píer, o céu laranja e ele, exaustos, anoiteceram.

segunda-feira, julho 25, 2005

-- Imagine um elefante -- disse ele.
-- Um elefante -- disse o garçom.
-- Imagine dois.
-- Hum...
-- Um, não: dois!
-- Eu sei: dois.
-- Imagine três. Dez. Vinte.
-- Vinte elefantes--sorriu o garçom.
-- Agora, imagine cem, duzentos, mil.
-- Mil?
-- Mil. Se você é capaz. De mil, cinquenta mil, cem mil elefantes. Você é capaz?
-- ...
-- Pois agora imagine um milhão.Um milhão de elefantes galopando, um milhão! Já imaginou?
-- Poeira, hein?
-- Poeira, nada: elefantes! um milhão. Um bilhão, chega?
-- Um bilhão -- o garçom repetiu.
-- Novecentos bilhões. Novecentos e noventa e nove trilhões! de elefantes. Não posso mais. Acho que chega, você que acha?
-- É muito elefante -- concordou o garçom.
-- É: muito. Pois agora você imagine uma pulga.
-- Uma pulga -- e o garçom suspirou, resignado.
-- Isso: novecentos e noventa e nove trilhões de elefantes de um lado: e uma pulga, do outro lado. -- Morou?
-- Não.
--É o terror -- arrematou ele. Me dá um uísque.




[de O encontro marcado, Fernando Sabino]

quarta-feira, julho 06, 2005

"e agora, josé?"

Eles são suor e samba, movidos a feijão-com-arroz. Eles são josés assim, com letra minúscula e acento no e. josé da silva, josé
sem nome, josé-josé. josé de natal, de joão pessoa, do rio e de alagoas. os retratos suados da nossa pátria mãe gentil. os
retirantes. todo brasileiro tem um pouco de josé, o brasil todo é obra de josés. Retratam o povo humilde e bravo que [sobre]vive
em terra seca, gente seca, de vida seca e boca amarga. passeiam pela central como gente comum, suam o pão de cada dia,
lambendo os beiços quando sobra pra cachaça. casam-se com marias, criam outros josés. servem os Adalbertos de Pereira e Lima,
os J. P. Fernandes, os senhores da renda e da dívida. brilham nos olhos a esperança e a inocência. dignidade de josé,
malandragem de josé, ritmo cadente de josé. o josé que sofre quieto de cólera e barriga d'água, o josé sem dente, o josé
raquítico. O Brasil está cheio de josés, e o coração dos josés nunca se enche de brasil, que assim também, com letra minúscula,
suporta os passos deles de segunda a sexta, sábados, domingos e feriados; e traduz, no melhor sentido da palavra,o sentido de ser
josé. joséjoão, josécarlinhos, josédasilva, joséantonio.


"Você marcha, José!
josé, pra onde?"

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