domingo, novembro 07, 2010

Lição sobre o azul

o céu fica assim azul fosforescente no finzinho da tarde porque existe uma coisa chamada estratosfera e ela, que é azul, reflete a luz do sol, que fica muito inclinada em relação à cidade e aí as nuvens que se mexem muito rápido por causa das correntes de ar ficam amarelas e o céu fica vermelho por causa da poluição dos carros, e isso é porque a luz já bateu em algumas coisas vermelhas até voltar lá pra cima e também viajou um bom caminho desde lá do sol, mas ela, a luz, viaja muito rápido mesmo porque é a única que pode viajar na velocidade da luz; e é também por isso que as cigarras cantam, é porque elas gostam muito da tarde vermelha azul amarela e do ventinho que bate pra esfriar um pouco tudo, porque o sol é um grande iluminador do mundo que de vez em quando se inclina pra ele à tarde, e aí ele se enche tanto de orgulho da terra que é tão boazinha e constante e azul, que deixa ela assim toda coloridinha meio fosforescente, a gente é que não vê sempre aqui de baixo porque tem outras luzes que a gente faz e elas são muito amareladas e ocas e algumas são meio verde-azuladas mas não tem nenhuma que repete o sol porque o sol fica longe e é muito mais velho do que todos nós.

sábado, julho 17, 2010

Álbum de Verão

Uma placa ao contrário e, ao longe, vejo o rastro do avião no céu ainda azul.
O armário durante a noite, o flash da câmera no espelho e você me provoca de óculos de sol.
O criado mudo e o cinzeiro repleto.
Eu me pinto ao espelho.
A lavanderia e você ao telefone, produtos de limpeza.
Nós dois, peles vermelhas no colchão desértico.
Dois olhos grandes de gato no parapeito.
Aquele fusca e todos nós.
Nossas doses de whisky sobre o mármore, pedras de gelo, água com gás e você de branco naquele bar em Copacabana.
A vista da janela, fios que se emaranham.
Um cigarro e uma pose, cabelos muito curtos, unhas vermelhas, os carros em um borrão.
Meus óculos ao fim da tarde.
Na ruela iluminada, alguém dispara de bicicleta.
Você estica os braços e nos fotografa, sorrio e aperto os olhos.
Aquele verão sonhado, revisito no inverno: você não vai voltar.

quinta-feira, abril 01, 2010

Asfixia

Quando J.C.Clarke pôs as mãos no meu pescoço
e me espremeu como se eu fosse uma ameixa
pensei: que pena que não ordenhei
as ovelhas.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Para Maíra

Fumamos a mesma quantidade de cigarros. Ela usa uma capa vermelha, na parte de dentro um forro com estampa floral, sapatos de verniz. Tem saudades da infância, coisa morta mas que passa ainda viva por um brilho nos mesmos olhos que se deparam com tanto menos mundo do que se imaginava nos contos de fadas. Balões colridos e uma máscara, papai e seu fusca, observa os riscos do asfalto, fazer o que bem entender, ser espontâneo e gostar de tudo. Sonhar, principalmente. Que bom que essa infância se mantém ainda acesa, mesmo que lá no fundo dos olhos, entre um choro e outro e as mil dificuldades, ter um presente, nossos dons: as fadas madrinhas nos traziam na infância, varinha de condão. Bom perceber que eles continuam lá, mesmo depois que os pés crescem e os sapatos deixam de servir, entre as preocupações de adulto e os cigarros, tantos quanto os meus. Quem diria, parte do processo de crescer é entender as fadas e o que elas nos contavam. Usar a capa dos dois lados.

domingo, outubro 18, 2009

Helena e o raio laser

Helena não usa maquiagem, aposta nos óculos de grau e no furo de traqueostomia feito com caneta bic. Sorri, mas tem uma tristeza rápida que percorre os olhos antes que as covinhas se fixem nas bochechas. Helena não se importa em tomar a quarta vodka, limão e gelo, meia-calça preta, cabelo channel. Helena se diverte com as luzes verdes de raio laser no desespero das duas da manhã, perninhas finas como as do banco do bar em chamas, "culpa do seu whisky", ela me diz como se relinchasse.


E é com precisão quase cirúrgica que ela, lasciva, lambe a retina de um barbudo qualquer, boca nos cílios, devassa leve que sem cautela nem nojo deseja o carinho do outro - nunca provou o olho de quem realmente queria. Mas ela não se importa mais com isso: antes dança tímida libertina para qualquer cigarro que a queime na mão.

Helena não gosta de dar risadas, mas rir é um mal necessário. “Vamos embora”, bocejo, com um peso de álcool embaixo dos olhos: basta para que ela me agarre forte pelo braço e me arraste pela calçada rindo e chorando: “não”, ela me diz, gelo e limão em pedaços sobre o cimento já claro: “daqui, só vou embora quando chegar o dia”.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Estufa

Mergulho na incapacidade de lhe nomear: naquele ponto, permanecer, quatro retinas que se encostam, atrapalhado relance. Foi como uma promessa de que as coisas poderiam ser em cores: letreiros, supermercados, poças, sol das sete em fumaça de avenida que já não tomamos mais. Pena. Hoje essa ausência é som estranho de silêncio e relógio, madrugada infinita. Mal me lembro, e a conversa, nem sei, a conversa era desculpa para projetar palavras em sentido ambiente, situação qualquer, minutos a mais, futuro rasgando o presente esquisito. Deixar que se perca a naturalidade, ignorar o entendimento e depois permitir o toque, medo de tudo. As formas se distorcendo em braços e mãos e costas, dobrando esquinas, formando estufa e vedando, pronto, mundo de dois formado, bolha firme. Mas as madrugadas não falam sozinhas, é o que descubro todos os dias. E é o tempo todo que procuro letreiro que me ensine a organizar as coisas, que me entregue seu devido nome, néon qualquer que nos guie de volta para casa, para fora de nós dois.


10/2008

sábado, agosto 01, 2009

Trinta

Mentalizar o amante. Tampar o nariz com os dedos, imergir, água azul nos azulejos: trinta, vinte e nove, vinte e oito, vinte e sete, vinte e seis: mergulhar na sensação de homem/água até que ela esteja por toda a parte do corpo, maiô, boca, orelhas. Por algum acontecimento estranho e místico, virar bicho do mar, parte de tudo, azulejo, cloro, escamas. Escoar até o mar inteiro e ser todos os seus bichos e todos os seus sais. Se for possível respirar por baixo das ondas, transmutar-se em sereia e alagar todo o resto do mundo cuspindo rajadas de espuma. Assim nem todos os oceanos serão pequenos demais. Ser então eternamente possuída por aquele ser, monstro maior de todas as águas ferozes, cabelos enormes que dançam com a fúria das correntes, bocas que se encharcam, tempestade, rodamoinho abissal. Três, dois, um: emergir em anseio de ar, nos ombros sentir derreterem pesados os cabelos, bolhas no nariz. Pára e vê: só o que tens são os azulejos antigos dessa piscina abandonada, metade cheia, metade vazia, água parada, maiô desbotado. Respira, que estás sozinha agora.

sexta-feira, julho 10, 2009

Fiorucci

Queixo no peito,
observo na camiseta
dois anjinhos sórdidos como
aquelas duas estrelinhas
(entrelinhas) de ontem
que são sórdidas porque
brilham mesmo tendo morrido
há 35 milhões de anos. Ainda assim,
luz solta, que triste, elas nunca se
tocam,
obrigadas a andar em linha reta.

Será que somos assim,
meu bem? Anjinhos
mortos há tanto tempo que
no entanto
insistem em reluzir,
brilho falso
que viaja no espaço?

terça-feira, junho 23, 2009

Quando o olhar não puxa nem lágrima nem grito nem suspira por calor qualquer, quando só se quer seguir em frente, malas feitas, estou de saída: acabou.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Sans Soleil

Das palavras que você me ensina: fulgurância, e eu nem poderia dizer se de fato existe, verbete no dicionário, ah, a dúvida. Eu não duvido. Quando tudo o que eu queria dizer era: não há nada, nada que eu queira fazer para romper o que temos. Você não me acredita, eu sei. Mas, meu amor, não troco nossos jogos inúteis de palavras e carinhos por nada no mundo. Fantasio mil vidas em que sempre nos reencontramos, curiosidades do destino incerto, relances: me flagras chorando em banheiro público e me abraças como se estivesses voltando para sempre. Você com outra me olha fixo nos olhos através de multidão, óculos escuros. Nós dois em outros tempos, preocupações de adulto e um olhar que te lanço de vazio e volúpia, louça suja, contas a pagar. Ah, as fantasias, os nossos outros tão enormes e inexistentes micro-mundos, imensos, tão reais que nos sufocam. Fulgurâncias.
-
Há uma gota de chuva na janela, ela escorre pelo vidro, lenta sobrevoa a cidade e presencia dois mundos: esse meu, o nosso, onde você não está, e esse outro, o imenso, a rua de prédios enormes e o universo inteiro, de onde fazemos parte, macrocosmos de reencontro infinito. Soletrar o desconhecido, c-a-p-r-i-c-h-o-s astrais. Meu bem, você assim longe faz parecer que nunca nos fomos apresentados, falseia mundo onde ainda não conheço os sinais das tuas costas, teus cabelos, teus pés. Realidade absorta em solidão, modo de espera, limbo sinistro onde tua língua não alcança meu pescoço. Assim te sonho em qualquer praia sem sol enquanto, imagino, você também me sonha: em praia sem sol qualquer.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Pique-esconde

naqueles
sábados feitos de dias
úteis - vermelho e azul -
saia nova, sapatos
de verniz, riscos de areia
porque não tinha problema
sujar - depois limpava -
os balanços das tardinhas, ai,
os risinhos, o moço
do algodão.

Realizo para mim, catástrofe:
nós crescemos.

sábado, dezembro 06, 2008

Natal

as folhas de outono não caem
porque é dezembro, por isso
existem cigarras e assobia-se
umas notas rotas: luzes
por baixo do trânsito, tapete de asfalto,
há quem diga: a cidade gira
(desfiles de pombos), ilumina-se em
micro-lâmpadas - absurdos carnavais de luz - seis
da tarde de terça, azia de matte,
verão chinfrim.

domingo, outubro 19, 2008

Nightmare

Tem uma égua
no meu quarto.

sábado, agosto 23, 2008

Esquina

respiração alta pensamento
vertigem ao refazer o percurso casa
bar da esquina casa até que não haja mais
moedas para os vinte cigarros de cada
dia caminhar com medo pela rua deserta
até que não haja nada que me tirem até que não haja
nada nem mim mesma porque daqui já tiraram
tudo daqui já tiraram qualquer coisa que
já se pensou possível real imaginada suja
boa e ruim daqui já saiu de tudo menos

quarta-feira, julho 02, 2008

Ano-novo

Naquele dia em 1985 esperei que você entrasse no bar às onze e meia e quarenta e cinco e cinquenta e dois tomei uísque só um gole um copo seis cigarros vinte anos vestia uma saia que ia até os joelhos ao meio das coxas batão estampado cabelos colares apenas um três e a medalha de Santo Antônio segurando uma criança antônio não fez com que você entrasse pela porta do bar derramei uma duas vinte e cinco lágrimas e gotas de álcool se espalhando no balcão guardanapo deu meia volta achou caminho fiquei sem dono cachorra andei com dois com quatro mais de nove que não você.

sexta-feira, maio 02, 2008

Dia seguinte

Uma casa vazia que não é a minha. O torpor ainda no corpo. Alguns cigarros. Ainda estou doente. Ele pesa demais sobre mim.

A tinta da caneta que já quase se esgota. Mas escrevi tão pouco... Agora compreendo porquê. O li demais. Vivo uma vida que não é a minha.

Impossível dormir. O corpo pesado na cama atrapalha uma mente que pensa, pensa, pensa mas parou de escrever. Agora me leio em outra gente: um Manuel Bandeira para dias de sol, Ana Cristina César para dias de chuva, Caio F. para todos os dias. Eles me lêem, embora nunca tenham me conhecido.

Ele não gosta de mim. Ele me quer, e é só. Eu me prostro à sua disposição, deixo levar porque sou fraca e também porque amo. Ele mente. E me assusto quando, ao acender um cigarro, é a voz dele que escuto na minha cabeça. Ele é parte de mim, como toda essa fumaça.
Fazia tempo que eu não transbordava. A sensação é boa, mas romper essa membrana sempre dói. É latente, não posso viver sem. Já esqueci o limite do texto. Devo parar por aqui? Prossigo. E é sempre na pausa entre uma tragada e outra que vomito verbo outra vez. A caligrafia é precisa, como raras vezes a vi. Porque é urgente, porque ainda amo. Porque estou sozinha no apartamento completamente iluminado.

Ele me lê sem culpa. Eu só tateio as letras, buscando adivinhar. Mas ele permanece um mistério pra mim, como essas buzinas, como esses chamados, como essa janela. Devo parar por aqui.

sábado, dezembro 29, 2007

Balanço

I
Estou aprendendo a te desmitificar. Te entendo mais do que devia, te odeio por isso. Queria saber de tudo. Não é possível que seja só isso. Estou cansada. Pro inferno com os finais de ano. Aqui por dentro nada mudou. Sou a mesma e você é o mesmo, desde sempre. Que coisa, pensei que tudo fosse diferente do que é. E por que tudo finge que muda tão rápido? Você diz que vai dormir. Eu duvido.

II
Não se esqueça, isso não é nada. Eu passo, você vai passar. Eu sou livre de você? Não sou. Espero secretamente que você seja incapaz de se libertar disso tudo, porque nesse dia serei menos dona de mim. Há aqui muito amor, um amor que transborda. Mas que também estanca, deixa um balão de ar nas entranhas e, de repente, se esvazia.

III
Agora acho que o pouco que sei de mim foi por causa de você, que nem soube me ter direito. Imagino que já não tenha volta, é tarde para esquecer, tapar os buracos na parede para que eu não veja o outro lado. No que percebo: você me incompleta. E assim me dou conta da importância que isso deve ter para um espírito tão maciço como antes, em uma instância qualquer, era o meu.

IV
Estão faltando algumas peças para que eu te remonte inteiro e assustadoramente real. Às vezes desejo nunca as encontrar, e me lembro forte de quando você era um grande espaço em branco com pequenos pedaços brilhantes de uma imagem que me excitava até que eu quisesse mais e cavasse desesperadamente em busca do resto da foto. Agora que já juntei tantos, me assusto e recolho afobada detalhes de mim para encaixar à força nas lacunas do teu quebra-cabeça. Mal sabendo que eles já estariam lá sem que eu precisasse forçar. Mal sabendo que as peças formavam um retrato que é meu também.

V
Está tarde. Há um mundo repleto de ar e coisas entre nós dois. Há distância, sempre houve, mas ainda assim te quero ver, de perto. Do ponto em que chegamos: avançar. E ainda assim, incompletamente, te querer inteiro e peça, para que eu possa querer fugir apavorada e sozinha de você, o ar e eu.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

4:32

Impossível dormir
com tantos buracos
nas gengivas, peles se
soltando dos dedos, pálpebras
escancarando janelas. queria
sonífero pra noites
assim, algum que não
fosse escrever
tão mal.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Segunda pele

Você não presta, não. E ainda pensa que me engana. Você é capricho, ouviu bem? Ca-pri-cho. Um vestido que eu achei bonitinho e resolvi comprar, mas que agora não sai do meu corpo, mesmo curto e com um botão defeituoso. Mas se por acaso eu resolver olhar com cuidado, ah, e quando eu quero eu olho cada acabamento, cada costura (sou deveras perfeccionista quando tenho vontade), se qualquer dia desses eu me cansar do teu tecido desbotado, te tiro e, nua, nem te ponho no armário, que é pra não ter vontade nunca mais de te vestir. Nem naqueles dias quentes, quando eu não me importaria muito com as costuras mal-feitas e sairía por aí feliz da vida te exibindo como parte de mim. Como se fosse novo.

terça-feira, agosto 28, 2007

Percurso

Meu amor, me diz que Tokyo não é longe daqui. Me diz que, no meio daquela multidão, distraídos, buscando, indistintos, vazios e um pouco mortos, nós vamos nos esbarrar. E ainda assim, não saberemos de onde, quando ou porque, mas vamos nos reconhecer, você e eu, de algum lugar distante, uma praia escura, Copacabana, Montauk .

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